terça-feira, 21 de setembro de 2010

Época sempre se supera #revistaepoca #cartaonacionaldasaude #sus

Em 5 de fevereiro de 2009, eu bloguei sobre o sermão religioso, quero dizer, reportagem da revista Época, em que o autor, anônimo na reportagem, tece inúmeras loas ao CU - Cadastro Único. Bem, aquilo mais parecia um press release do Ministério da Justiça conjugado com sermão da Seita do Identitismo.

Hoje, almoçando, vim a calhar de ler a edição 624 desta mesma revista. Esta edição tem uma reportagem com o nome "O Cartão que virou cartolina" sobre o fracasso do Cartão Nacional de Saúde, uma tentativa do governo federal de acabar com a privacidade dos usuários do SUS. A reportagem começa com as metas mirabolantes do sistema cujo cartão:
[D]aria acesso em tempo real a informações sobre o atendimento prestado a cada paciente desde o nascimento. Teria registros de consultas, exames e da medicação prescrita durante toda a vida.
Como diz a reportagem sobre o fim do sistema:
Ambiciosa para seu tempo, a ideia se mostrou cara e inviável diante de obstáculos impostos por diferenças regionais, suspeitas de fraudes em licitações e resistência dos profissionais da saúde.
Não é a primeira vez que a classe médica opõe-se a tal sistema, como eu já bloguei, a Associação Médica Britânica pediu boicote a sistema semelhante no Reino Unido para seus membros. Quanto a parte de custos, que no Brasil ficou em poucos R$ 418 milhões, as experiências britânicas, australianas e canadenses também nos mostram que estes sistemas falidos custam muito dinheiro. Além disso, a parafernália de apoio ao sistema apodrece em almoxarifados e o governo sequer ter uma estimativa confiável de quantos cartões foram emitidos. Isto é semelhante ao que ocorreu com o Projeto Presença. Tanto no Cartão Nacional do SUS como no Projeto Presença, a tequinolojia (termo que deve ser empregado em ambos os casos) dava muitos problemas e como já é praxe, cada ente da Federação empurrava o problema para outro.

Depois tivemos problemas na licitação, ou seja, suspeitas de fraude, problemas na transmissão de dados e problemas na emissão dos cartões; como diz Sônia Machado, da Secretaria de Saúde de SC, [o]s terminais foram um presente de grego”. Presente de grego este que o Ministério da Saúde recusou-se a receber de volta.

Com isso tudo, uma auditoria do TCU disse que o projeto transformou numa lista de usuários do SUS e nada mais. Curiosamente, ou não (trato disto no final), os srs. Rocha, Ramos e a sra. Lemos não conseguiram nem ler nem citar o acórdão 461/2004 do mesmo tribunal sobre a escandalosamente frouxa política de segurança de informação do DataSUS, o pretenso gestor do Cartão Nacional de Saúde. 

O governo, sem apreço à privacidade nem aos contribuintes, resolveu tentar novamente dando R$ 25 milhões para a Prefeitura de Belo Horizonte recomeçar do zero o sistema com um novo approach. Fazendo uma matemágica simples para cadastrar todos os brasileiros menos eu custaria a bagatela de R$ 1.951.799.129,26, dinheiro que sobra fartamente para a saúde. Para quem não sabe, isto corresponde a quase 4% do orçamento anual do Ministério da Saúde.

Antes do fim, temos o ceticismo do presidente do Conselho Nacional da Saúde:
Apesar das alegações do Ministério da Saúde de que providências foram tomadas para corrigir o programa, há ceticismo entre os profissionais em relação ao êxito das medidas. “O problema é que o governo está no fim, e não saberemos se uma solução será encontrada até lá”, afirma o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior. “A situação torna-se ainda mais grave porque muito dinheiro já foi investido no cartão do SUS sem que o retorno tenha sido alcançado.” Batista diz que, para piorar, ninguém foi punido pela má aplicação dos R$ 418,6 milhões.

Calma! Isto é uma reportagem de Época portanto o último parágrafo é um manifesto de fé:
O cartão do SUS é um projeto ousado, que começou no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi mantido no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda não ficou de pé. Agora, às vésperas de uma nova mudança no comando do país, o Ministério da Saúde anuncia um novo sistema, que aparentemente não será concluído até o fim do ano. A primeira tentativa de implantação do cartão do SUS não deu certo. Espera-se que essa nova tentativa seja mais bem-sucedida.
Eu acredito que este tipo de encerramento deve estar prescrito no Manual de Estilo da dita revista. Ao contrário da reportagem sobre o CU, esta em nenhum momento mencionou a questão da privacidade dos usuários do SUS (na reportagem sobre o CU, o pseudocontraponto levando em conta a privacidade trazia a opinião de alguém que é favorável ao dito cadastro único). Até, em razão disto, que eu não esperava que o trio fizesse uma análise profunda e documentada sobre os riscos à privacidade dos usuários nem as reações contrárias a este tipo de sistema pela mesma razão em outros locais do mundo.

Mais um exemplo da incapacidade dos governos em gerenciar informações pessoais.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cuzetes terão sua chance

As Cuzetes, apelido carinhoso para as pessoas que apoiam a medonha Lei 9.454/1997 (a lei do CU - Cadastro Único), poderão ser cobaias em Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Maranhão, Rio de Janeiro e Santa Catarina (SC também teve o desprazer de ser cobaia das urnas eletrônicas e das urnas biométricas) do projeto-piloto do RIC, apelido informal do CU. Considerando que a implantação do CU já foi prometida para muito antes e sempre foi postergada, e desta vez estamos falando ainda dum projeto-piloto, vamos esperar para ver em dezembro.

Enquanto isso, o Estado de S. Paulo, talvez o único jornal brasileiro com uma política editorial decente sobre privacidade, traz a opinião do dr. Marcel Leonardi (segue-o no Twitter @MarcelLeonardi) critiicando o fato do CU centralizar todas as informações da pessoa num local. Como tu sabes, eu, além dos problemas da centralização, tenho uma divergência filosófica profunda e irreconciliável com a ideia do governo identificar as pessoas. Explico-me: quando o governo arvora-se o direito de identificar as pessoas, ele está autoconcedendo-se o direito de dizer quem é pessoa ou não e sempre que governos fazem isto, isto acaba dando problemas.

E o CU vem sendo proposto por um governo que não consegue ter o menor controle sobre informações pessoais, basta ver o atual affaire Receita Federal.

E se não bastasse, Ricardo Martini, do ITI, defende enfaticamente a obrigação do uso do CU para acessar a Internet.

P.S.: Também recomendo a leitura deste editorial d'O Estado de S. Paulo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

#Petrobras acessa ficha criminal de possíveis empregados

A Petrobras, a quem eu chamo de Petrossauro Rex, estaria envolvida num escândalo com a Polícia Civil de São Paulo, onde policiais teriam vasculhado informações criminais de candidatos a emprego na dita empresa. De acordo com a reportagem, 40 mil pessoas teriam sua vida criminal vasculhada num período de 10 anos por requisição da Petrobras. A reportagem diz que os policiais envolvidos teriam recebido brindes pelos serviços. A Secretaria de Segurança Pública de SP soltou esta nota, cujo trecho coloco abaixo, que contradiz o que a Petrobras alega:
As polícias civil e militar fazem consultas ao B.O. criminal sempre que necessário para investigação ou para o policiamento preventivo. Não são permitidas consultas para particulares – sejam pessoas físicas ou jurídicas
A Petrossauro Rex diz que isto é "prática corrente no meio corporativo e faz parte da sua política empresarial de segurança", muito embora isto dificilmente pode ser lido como "necessário para investigação ou para o policiamento preventivo", como diz a mantenedora destes dados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Consultas Integradas é violado novamente

Em 28 de dezembro de 2007, eu postei sobre o uso indevido do Sistema de Consultas Integradas. Para quem não conhece, o Consultas Integradas é uma ferramenta de acesso a banco de dados de identificação, antecedentes e justiça criminal no Rio Grande do Sul. Agora, o mesmo sistema volta às páginas dos jornais devido ao acesso indevido aos dados pessoais disponibilizados pelo Consultas Integradas.

Embora a notícia tenha saído em Zero Hora, o repórter, Daniel Scola, é da Rádio Gaucha. Scola reporta que  o sargento da Brigada Militar César Rodrigues foi preso por suspeita de extorsão. Agora, como ele conseguia dados para isso? Alguém disse Consultas Integradas? Alguém acertou!

Rodrigues não apenas teria acessado dados de suas alegadas vítimas mas como teria acessado de outras pessoas:
Na manhã desta segunda-feira, o promotor Amílcar Macedo, responsável pela investigação da ação do policial, informou que o servidor da Casa Militar também pesquisava informações sobre filhos de deputados estaduais e de uma desembargadora. Segundo Macedo, o sargento pesquisava fotos de crianças.


Entre janeiro de 2009 e agosto de 2010, o sargento acessou ao sistema de consultas integradas mais de 10 mil vezes. Entre as autoridades que tiveram dados pesquisados estão a governadora Yeda Crusius, o senador Sérgio Zambiasi, o candidato ao governo do Estado Tarso Genro, deputados estaduais e federais.

Além dos políticos, jornalistas também tiveram dados acessados pelo policial militar. Na lista divulgada pelo promotor estão Políbio Braga, Marco Aurélio Weissheimer, Maria Lúcia Streck e Rafael Colling. Os delegados Ranolfo Vieira Jr., Heliomar Franco e Flávio Conrado também foram pesquisados.
perfil no Twitter de Amílcar Macedo, o promotor responsável pelo caso, lista as seguintes pessoas:
Braga, Políbio (jornalista)

Braga, Vanessa
Cel. Bondan (Brigada Militar)
Busato, Luís Carlos (deputado federal)
Colling, Rafael (jornalista)
Crusius, Yeda (governadora)
Farias, Stela (deputada estadual)
Ferst, Lair
Genro, Tarso (ex-Ministro da Justiça)
Maj. Jacques, Jefferson (Brigada Militar)
Koutzii, Flávio (ex-deputado estadual)
Lara, Luis Augusto (deputado estadual)
Manfrói, Cláudio (vice-presidente do PTB/RS)
Cap. Mazzali, Ana (Brigada Militar)
Paiani, Adão (ex-ouvidor da SSP)
Cel. Quevedo (Casa Militar)
Reckziegel, Tania
Santos, Eliseu (ex-secretário municipal de POA)
Streck, Maria Luísa (jornalista)
Torrano, Telma
Zambiasi, Sérgio (senador)

Filhos menores de deputados estaduais
Chefes do Serviço de Inteligência do CPM e V Comar
Como se percebe, a lista é particularmente eclética. Demonstrando a anarquia que é o Consultas Integradas, o Secretário de Segurança Pública do RS, Edson Goularte, disse que o Consultas Integradas é usadas por 49 órgãos:
O acesso é feito por pessoas credenciadas, a pedido de diferentes chefias. O Detran usa, a prefeitura usa, a Polícia Civil... Enfim, tem várias entidades. São 49 organizações que estão dentro desse 'guarda-chuva' que tem autorização ao sistema
Tal como a Receita Federal, o Consultas Integradas é uma legítima casa-da-mãe-joana. O mais estranho foi esta fala:
Para ele [Sec. Goularte], o episódio envolvendo o sargento da BM caracteriza-se como uso indevido de informações por pessoa credenciada, e não violação de dados.
Qual a diferença dum para outro? Espero uma resposta, sr. Goularte.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Está no ar o capítulo 546.858 da novela “Venda de Dados Pessoais em CDs”

Como já foi noticiado neste blog aqui e aqui, a venda de dados pessoais sensíveis que o governo deveria manter sob sigilo em CDs é uma infeliz tradição no Brasil. Hoje, O Globo noticia que um repórter seu comprou, na rua Santa Ifigênia em São Paulo capital, por R$ 200 dois CDs com dados sigilosos de aposentados da Previdência Social e com dados de proprietários de veículos de todo o país. O vendendor também disse ser possível conseguir listagem de clientes do Itaú Unibanco. Por sua vez, o Ministério da Previdência Social diz que entre janeiro e setembro de 2009, cerca de mil aposentados tiveram seus dados usados irregularmente para empréstimos consignados.

Lista Negra da Privacidade
Conhece quem é contra ao teu direito de privacidade